A demissão em massa, ocorrida
no mês de fevereiro, dos 4.270 funcionários,
que correspondem a 20% do quadro de funcionários
da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer),
segundo anúncio da empresa, foi devido à queda
de 30% nas encomendas de aeronaves, ocasionada pela crise
financeira mundial. O corte ocorreu nas seis unidades,
localizadas em São José dos Campos, Botucatu
e Gavião Peixoto, e em outros países como
China, França e Portugal.
A redução da mão-de-obra da Embraer
não foi um fato isolado, e como era de esperar,
repercutiu em outros setores, como por exemplo, nas empresas
de transporte por fretamento de passageiros, que prestavam
serviço à fabricante de aeronaves na unidade
de São José dos Campos. Na região
existem 35 empresas de fretamento, distribuidas entre
os 50 municípios do Vale do Paraíba, cuja
frota somada gira em torno de 1.500 ônibus.
Segundo Marcos Lacerda, presidente do
Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros
por Fretamento
da Região do Vale do Paraíba (Sinfrevale),
e representante da FRESP - Federação das
Empresas de Transportes de Passageiros por Fretamento
do Estado de São Paulo, desde 2007 as transportadoras
já aplicavam reajustes inferiores e até insuficientes
para cobrir os gastos operacionais das empresas. “Com
um levantamento do Sinfrevale foi constatado que as transportadoras
que prestam serviço à Embraer, em virtude
da crise, acabaram recebendo um percentual de reajuste
menor do necessário para cobrir os custos dos
períodos de 2007 e 2008”, complementa Lacerda.
As demissões em massa agravaram a situação,
que já era preocupante para os empresários
de fretamento. “Há informações
do setor que em virtude disso, houve uma redução
de 15% no número de veículos e 20% no número
de viagens. Esses últimos percentuais mais problemáticos
para as transportadoras, pois as viagens retiradas foram
nos turnos de trabalho, ou seja, retiraram a produtividade
que o veículo tinha e dessa forma as empresas
não conseguiram manter a receita”, explica
o presidente.
Essa queda da receita ainda desdobra-se
num outro agravante para a mão-de-obra do transporte. “Agora
além das perdas acumuladas, as transportadoras
passam por um momento de ociosidade, tanto para a mão-de-obra,
como para os veículos, o que prejudica diretamente
as negociações para aumento de piso salarial
dos empregados das transportadoras por fretamento”,
reflete.
E as notícias ainda são mais desanimadoras,
pois o discurso da Embraer é de que se foram reduzidos
20% em sua mão-de-obra, vários serviços
deverão ter redução proporcional. “Apesar
de sabermos que no transporte isso não se aplica,
os contratos sofrerão redução com
o corte de orçamento. Ficará muito difícil
negociar aumento de piso salarial para os nossos empregados”,
pondera o presidente do Sinfrevale.
O professor Ozires Silva, que liderou
o grupo responsável
pela criação da Embraer e que a dirigiu
de 1970 a 1986, acredita que apesar das demissões,
a estatal já trouxe diversos benefícios à região
e, neste momento, a redução do quadro de
colaboradores foi para assegurar a continuidade da empresa. “Acho
que a Embraer trouxe tanto de bom para a região
que deveria ser mais respeitada e mais compreendida,
quando o seu principal mercado, os Estados Unidos, gera
uma crise que afeta seriamente suas vendas. Ela tinha
de reagir para salvar o todo, mesmo perdendo parte dele.
E isto ela fez, cortando todos os custos possíveis
mas, mesmo lamentando, chegou à conclusão
que teria de dispensar uma parcela de seus empregados”,
defende o empreendedor.
Para o procurador Adélio Justino Lucas que representa
o Ministério Público do Trabalho de São
José dos Campos (SP). "Em uma situação
de crise, a empresa preferiu demitir em massa, cortando
custos futuros, em vez de apostar na ampliação
do seu negócio", disse em audiência
pública em Brasília.
Clandestinos
Para enxugar custos, segundo Lacerda,
empresas da região
ainda realizam a contratação de transportadoras
de clandestinas, atividade ilícita e que pode
trazer problemas para o contratante. “A crise tem
levado algumas empresas contratantes ao desespero, temos
percebido em nossa região um aumento do número
de veículos clandestinos sendo contratados, inclusive
por grandes empresas, que passaram a ignorar a legislação
regulamentar.”
“Caso um funcionário transportado por veículos
clandestinos, seja acidentado nos percursos casa-trabalho-casa,
a empresa responsável pela contratação
da transportadora ilegal poderá ser acionada judicialmente. É a
chamada correponsabilidade”, complementa Regina
Rocha, diretora jurídica da FRESP - Federação
das Empresas de Transportes de Passageiros por Fretamento
do Estado de São Paulo.
A crise que atingiu as transportadoras
da região
com os cortes da Embraer, segundo Lacerda, deve ter chegado
a outros setores. “Além do transporte, outros
setores provavelmente serão atingidos, como o
comércio. Se há desemprego, o consumo também
deve cair. Vamos ver como ficará o andamento da
situação no segundo semestre. Enquanto
isso, buscaremos manter a sobrevivência das empresas
do setor.”